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Nina Arsenault by David Hawe

Quem nunca escutou essa frase quando alguém se referia a gays? É aquela triste tentativa de mascarar a homofobia. Mas quantos gays não dizem essa frase se referindo a Travestis e Transexuais?

Se a frase começa dessa forma, o preconceito vem logo depois do “mas”. Não há dúvida.

Já falamos da Transfobia e começamos a discutir o chamado, e inexistente, exagero. Hoje o foco é grande preconceito existente dentro da chamada “comunidade LGBTT”. Comunidade que é completamente dividida e segregada, cheia de gritos individualistas. Não adianta querer esconder os preconceitos que temos uns com os outros na tentativa de mostrar que respeitamos a diversidade, a única forma de fazer isso é respeitando. A não ser que alguém queira que o mundo esconda seus preconceitos e faça de conta que está tudo bem.

Muitos LGB tem preconceito com os TT, justo as pessoas que deveriam entender o que é sofrer preconceito, as pessoas que deveriam aceitar a diversidade, as pessoas que deveriam respeitar as diferenças, as pessoas que deveriam querer união e não segregação. É como já disse no texto Exagero(?), “Aceitamos as diferenças, desde que sejam iguais às nossas”. O preconceito existe entre gays, lésbicas e bissexuais, porque não existiria com travestis e transexuais? E dá pra perceber o quão triste e errado é isso? O quão contraditório? Queremos nossos direitos, mas discriminamos outras pessoas.

Uma das coisas que mais repeti, e mais repetirei, nessa coluna, é o quão natural, normal e digno é ser um transexual ou travesti. Por natureza é. Nós é que tentamos tirar isso deles. Travestilidade e transexualidade são identidades de gênero tão respeitáveis quanto homem, mulher, andróginos.

A transfobia por parte dos LGB não é um empecilhos apenas para os transexuais e travestis, mas para todos os LGBTT. O preconceito entre pessoas que buscam seus direitos só dificulta a conquista. Nos fazem acreditar que somos uma minoria e por isso nossa voz é fraca. Mas só somos minorias quando estamos separados, segregados. O único grupo que não é considerado minoria em nossa sociedade é o de homens brancos e heterossexuais, todas as outras pessoas são minorias.

Se você usa a frase “Não tenho preconceito, mas”, talvez seja hora de repensar. De nada adianta cobrar que respeitem a “sua minoria” e as outras que se explodam. É hora de perceber que você está apenas repassando o preconceito, jogando no colo da próxima vítima.

E pra finalizar vamos traduzir o “Não tenho preconceito, mas”?

Tradução: Não tenho preconceito, só que ao contrário.

Imagem do filme Tomboy, de Céline Sciamma

Dia das crianças chegando, então vamos falar de infância?

Na infância ainda estamos nos formando como seres humanos, não sabemos do que gostamos, estamos aprendendo sobre o que é o mundo. É nessa fase que muitos aprendem o preconceito, outros aprendem que ser eles mesmos é errado, e um número crescente de pessoas aprende a respeitar.

E então me vem a pergunta, como é a infância de uma criança trans? Não tenho muitos relatos de infância, mas os que conheço são, de certa forma, parecidos. O exemplo mais constante é vontade de brincar e vestir roupas do, dito, “sexo oposto”. Um exemplo também comum entre lésbicas e gays. Alguns dizem que já se sentiam diferentes, outros queriam fazer xixi de pé e outros queriam fazer xixi sentados. As coisas que desde pequenos somos ensinados a encarar como de homem e de mulher.

Essas ações das crianças são naturais, mas muitas delas são reprimidas. É o binarismo de gênero tentando forçar cada um a “ficar no seu lugar”. Mas então vem a pergunta: “Não é o binarismo de gênero que força a escolha trans?” Primeiro de tudo, Transexualidade não é escolha, assim como homossexualidade. E agora vai a minha opinião, meu ponto de vista, vamos deixar isso bem claro. Ok? Eu acredito que a expressão da sexualidade, da identidade de gênero e de suas inúmeras combinações, pode acontecer em qualquer etapa da vida. Isso vai depender da repressão, do preconceito, das referências e da abertura que se tem. Diferentes pessoas assumem em épocas diferentes.

A nossa performance de gênero depende das referências que temos, do modelo que a sociedade usa. Nós vivemos em um mundo majoritariamente binário com relação aos gêneros, logo as expressões tendem a seguir esse padrão. “Se nós tivéssemos maior diversidade de gêneros, os trans existiriam?” Tenho certeza que sim, mas as expressões seriam ‘de acordo’ com tal diversidade. A expressões das crianças só mostra o quão natural isso é. Nascemos sem saber o que é homem e mulher, mas somos ensinados desde o começo de nossas vidas. Nos dizem o que é coisa de mulher e o que é coisa de homem.  Nos dizem se somos homens ou se somos mulheres. Mas, apesar de ainda não sabermos ao certo, às vezes nos sentimos diferentes daquele padrão e agimos, naturalmente, de forma diferente. A naturalidade com que fazemos isso na infância é uma grande prova da naturalidade dessa diversidade. Pois se fosse algo aprendido, milhares de gay, lésbicas, transexuais, travestis, seriam heterossexuais que se encaixam perfeitamente no binarismo de gênero, pois é isso que somos ensinados. E vale lembrar que muitos heterossexuais também fogem ao padrão binário de gênero.

Só passamos a ter senso crítico quando crescemos, amadurecemos. Mas com o tempo também somos contaminados por pré-conceitos, sem nem saber o motivo de sua existência.

Deixar que as crianças de hoje cresçam sem as distorções com as quais crescemos, deixando que elas se expressem livremente, sem separar o que é de menino do que é de menina, é chave para uma sociedade com mais liberdade, mais respeito, e talvez a única maneira de conhecer a real diversidade humana.

Não sei quanto a vocês, mas sinto que mesmo com toda a diversidade que já temos, ainda nos limitamos demais.

 

“I have too much imagination to just be one gender.” – Erika Linder

Apesar de toda maldade em meu coração, escrevo com muito amor. E como hoje é aniversário da Tia, vou escrever sobre um dos meu temas favoritos, androginia. Presentinho pra mim.

Mas qual a relação entre androginia e os transexuais? Assim como a transexualidade, e a travestilidade, a androginia também é considerada uma transtorno de identidade de gênero. Sim, são consideradas doenças.

Muitas pessoas chamam a bissexualidade de “fica em cima do muro”, “indecisão”, pois a pessoa não “escolhe” entre homens e mulheres, como se fosse escolha. A androginia seria, de certa forma, o “ficar em cima do muro” com relação as identidades de gênero. Só que esse “ficar em cima do muro” é a nossa maneira de forçar uma escolha que não existe, de querer puxar para um lado ou para o outro. Vontade de forçar algum tipo de binarismo. A androginia, assim como a bissexualidade, é uma mistura e não indecisão.

Pessoas andróginas são as que possuem um identificação mista entre masculino, feminino e etc. A androginia em si é bem simples, é apenas uma mistura entre os gêneros com os quais nos acostumamos, é a não definição ente um ou outro. A pessoa não se identifica como homem e nem mulher, se identifica como a mistura. Também pode ser feitas adaptações ao corpo, assim como transexuais e travestis, apesar disso ser incomum. A sexualidade também não é definida pela androginia, nós já aprendemos a separar identidade de gênero de sexualidade.

Existem transexuais andróginos? Eu nunca vi, mas com certeza eles devem existir. E eu sou completamente a favor. É por essas e outras que acredito que nossa sigla, que sempre cresce, será sempre insuficiente. LGBTT, já existe LGBTTQIA. Já estão ficando letras demais para uma sigla e letras de menos para definir a nossa diversidade.

No fim das contas todas as identidades de gênero, sexualidades, são simples, nós é que complicamos as coisas.

Apesar de sabermos que os gêneros não são binários, a língua acaba nos forçando a escolher como chamar alguém. Se usaremos pronomes femininos ou masculinos. Mas aí que surge a dúvida, como  lidar com as diversas identidades de gênero?

Bom, por enquanto está relativamente “fácil”. Como o binarismo ainda é muito forte, a maioria das pessoas acaba se forçando a escolher uma identificação feminina ou masculina. E nesses o nome, social, costuma ser o suficiente para sabermos como nos referir. Mas já existem casos de pessoas que não se identificam com essa regra de masculino e feminino, um bom exemplo é Laerte. Mesmo lendo em vários lugares, até falando, “o Laerte”, “Ele”, “o cartunista”, Laerte não se identifica com estes padrões binários. E se for pra ser bem sincero, eu também não. Gosto de roupas, em sua maioria, ditas masculinas, mas adoro misturar os guarda roupas e amo um bom salto alto, assim como uma “bolsa feminina”, uso a “identidade masculina”, pois é com ela que mais me identifico nesse sistema binário. Mas com essa minha identidade dupla, “O Guilherme” e “A Becha Má”, acho que encontrei meu melhor “meio termo”.

Quando falo de Laerte, utilizo palavras sem gênero especifico ou não utilizo. Como neste texto, é sempre o nome sem “do”, “da”, “ele”, “ela”, é “de Laerte” ou “Laerte”. É uma saída falha, pois nos leva a repetir o nome diversas vezes, mas, ao meu ver, é o que a língua nos permite.

Outra grande questão nesse “Ele ou Ela” são as travestis. Transexuais nós chamamos pelo nome social, o nome da identidade de gênero. Já no caso das travestis, costumamos desafia-las. É muito comum no depararmos com um “O”, um “DO” ou “DELE” escritos de todo tamanho para se referir às travestis. Travestis usam nomes sociais femininos, logo devem ser tratadas de forma feminina. A travesti, DA travesti, DELA.

As únicas pessoas que realmente se encaixam no binarismo de gênero são aquelas que se encaixam no padrão de homem e de mulher. E cada vez mais pessoas não sentem identificação com esse padrão limitado. Acredito que jamais conseguiremos categorizar todas as identidades, pois as possibilidades são infinitas. Devemos buscar uma forma de ser livres, sem precisarmos de nos definir como masculino ou feminino. A língua, assim como as normas sociais, foi inventada por nós, e sempre formos capazes de muda-las. Não podemos ignorar essa capacidade, pois ambas precisam de reformas.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi “Mas precisa vestir de mulher? Aí já é demais!”. Você provavelmente já ouviu inúmeras vezes. Seja dirigida a travestis, transexuais, essa é uma das maiores demonstrações da falta de conhecimento. Tanto do universo LGBTT(adicione aqui sua letrinha), quanto do universo dos trans.

A ideia básica é que ser Travesti, ou Transexual, é o próximo passo para quem é homossexual, como se fosse uma evolução. Isso parte do princípio que homossexualidade é alguma coisa que muda, que cresce e que pode ser revertida. Essa evolução parece óbvia e natural para muitas pessoas, inclusive as representadas pela sigla. Mas por qual motivo?

A homossexualidade já é encarada como a mudança da heterossexualidade de alguém. Vivemos em um sociedade heteronormativa, onde todos nascemos heterossexuais e temos nossa sexualidade “desviada”. Graças a falta de aceitação, se assume por partes e em fases os “desvios da norma”. De hetero se passa para gay, depois para travesti e então transexual. Mas essa passagem é distorção completa da realidade. E mesmo quando essa “transição” acontece, é por pura imposição social. O preconceito inibe até que a pessoa se canse de viver como quem não é. Não criamos apenas a falsa ilusão de que esse é o processo padrão, criamos o processo.

Homossexualidade diz respeito a sexualidade da pessoa, enquanto travestilidade e transexualidade dizem respeito a identidade de gênero. São coisa diferentes e independentes.

Muitos gays e lésbicas também veem a transexualidade e travestilidade como um exagero, algo desnecessário. Justamente aqueles que deveriam respeitar a diversidade. Esta é a parte mais triste do preconceito. Mas é bom lembrar que para o homofóbico(zinho de merda), gays e lésbicas também são “um exagero”. Aceitamos as diferenças, desde que sejam iguais às nossas. Perceber, assumir e mudar isso é fundamental para acabar com a transfobia, assim como a homofobia.

O exagero de verdade é acreditar que podemos julgar alguém por simplesmente existir. Pois é isso que transexuais e travestis fazem, existem. É o que querem ter o direito de fazer, o direito de viver. O resto são apenas questões sociais, valores, crenças… A partir do momento que deixamos as condições de nascimento, como sexualidade, identidade de gênero, genitais, todo o resto é aprendido. Nós criamos os conceitos do que é o que, o que pode e o que não pode. Todos esses conceitos, categorizados por nós, não são automáticos. Automático, o que não se aprende, são os desejos, a atração, as crenças e normas foram inventadas por nós. Nós criamos a heteronormatividade, nós criamos a escravidão, nós criamos o preconceito, nós limitamos a escolha profissional de travestis e transexuais, nós limitamos a convivência pública. Limitamos inclusive nossa sexualidade, você é isso, ou isso ou aquilo. Limitamos o gênero para o binarismo, homem ou mulher, “Quer ser mulher? Então ‘corta o pinto fora’!”. Batam o pé e protestem o quanto quiserem, mas nós inventamos o homem e a mulher.

Deixe de exageros e viva a diversidade de verdade. Muito mais ampla do que a sigla jamais conseguirá representar, muito maior do que conseguiremos categorizar. Falamos do exagero, mas ele tem uma irmã esquecida. Em breve vamos discutir a invisibilidade.

Imagem original – Lea T para Vogue França

Não, isso não é um culto ao pinto! Já discutimos isso antes. Hoje vamos é falar da cirurgia de transgenitalização de masculino para feminino, a transformação do pênis em uma neovagina.

Ainda nos referimos a cirurgia como “cortar o pinto”, mas não é que acontece na realidade. Apenas os testículos são “cortados”. Existem diferentes métodos de cirurgia, e ela sofre alterações com o passar tempo, ela evolui. Já é um procedimento seguro e deixou seu caráter experimental.

Não existe um procedimento padrão, então vou falar de forma simplificada o que é feito. Detalhes de verdade, só com um cirurgião ou um médico com conhecimento a respeito.

 Basicamente é feita a inversão do pênis. São retiradas a partes consideradas desnecessárias para a construção da vagina e usadas as necessárias. A uretra, assim como os nervos, a pele do pênis, são mantidos para a criação de uma vagina funcional. Os  nervos e vasos de irrigação também são mantidos, para que haja a nutrição da pele e a transmulher possua sensibilidade. Também é construído o clitóris. A glande, “cabecinha do pau”, é usada em alguns métodos para criar o clitóris, mas outros métodos utilizam partes do canal urinário e utilizam a glande para simular a presença do útero.

O medo de muitas transmulheres é ausência de prazer após a cirurgia. Apesar da falta de estatísticas para mostrar as chances de se manter a sensibilidade, cirurgiões garantem que a sensibilidade, bem como a capacidade de se ter um orgasmo, é cada vez maior. A transgenitalização, hoje, não se preocupa apenas com o aspecto estético, mas também com o funcional.

O pós operatório pode incluir exercícios para a neovagina e a utilização de uma sonda vaginal. Isso é feito para garantir uma recuperação adequada, fazendo com que a neovagina mantenha tamanho e funções adequadas. Devido a retirada dos testículos, indica-se tomar hormônios para evitar problemas como osteoporose, perda muscular, insônia.

Hoje a cirurgia é um procedimento seguro, legalizado e é direito das transmulheres. Deve ser feito apenas com especialistas e em locais apropriados, só assim a neovagina terá grandes chances de sucesso. Se informe, procure um bom médico, procure apoio e informações em ongs e núcleos LGBTT.

E deixo com vocês o relato de Maitê Schneider, uma das pessoas mais incríveis que tive o prazer de conhecer.


Hoje a Tia vai começar a falar dos procedimentos médicos, e da situação. Apenas uma introdução com pontos chave a respeito de tais procedimentos e da situação no SUS, com o tempo nós nos aprofundamos. A questão é complicada e não cabe em apenas um post. Teremos vários textos a respeito de cada parte do processo, dos direitos e procedimentos. E pode perguntar, que a Tia dá um jeito de responder.

O SUS oferece o processo transexualizador, ainda existem muitos obstáculos. Mas o primeiro passo para superá-los é saber o que estamos enfrentando.

O, e a, transexual tem direito aos tratamentos médicos, uma vez que estes são benéficos para a pessoa. Também é direito o uso do nome social, sendo possível indicar o nome a ser usando.

O acompanhamento terapêutico pode ser encontrado de forma gratuita, ou a preços populares, em faculdades que oferecem ambulatórios escola. O intuito do acompanhamento é propiciar bem-estar ao paciente, assim como o diagnóstico (falaremos mais sobre isso) e a avaliação da pertinência das cirurgias e da hormonoterapia. Lembrando que esta avaliação é feita por diversos profissionais, pois existem riscos, assim como outras cirurgias e tratamentos hormonais. A função da equipe de médicos é avaliar e decidir o melhor tipo de tratamento para cada pessoa, fazendo que o resultado seja mais satisfatórios e riscos sejam menores.

O acompanhamento pós-cirúrgico  deve se estender, por no mínimo, dois anos após a cirurgia. Em casos de hormonoterapia, o acompanhamento endocrinológico deve se estender por quanto tempo for necessário. Mesmo após a desvinculação do sistema de atenção, o paciente possui o direito de buscar acompanhamento psicológico e social pelo SUS.

Sabemos que direitos e realidade são coisas bem diferentes, assim como sabemos que o atendimento do SUS não é dos mais eficiente. Citei acima um resumo dos direitos aos tratamentos. Mas a demora no SUS pode ser grande. O atendimento digno é direito seu, mas sabemos que existem pessoas preconceituosas em diversos lugares. Elas são pequenos obstáculos. Procure indicações, e apoio, de centros de referência e ong’s LGBTT. Também é possível procurar a Secretária Municipal, ou Estadual, de Saúde. O atendimento à saúde da pessoa transexual é uma política pública, o que é responsabilidade da secretaria.

Entenda e cobre seus direitos. Só assim conseguiremos um maior avanço no tratamento para transexuais.