Posts com Tag ‘Transexual’

Nina Arsenault by David Hawe

Quem nunca escutou essa frase quando alguém se referia a gays? É aquela triste tentativa de mascarar a homofobia. Mas quantos gays não dizem essa frase se referindo a Travestis e Transexuais?

Se a frase começa dessa forma, o preconceito vem logo depois do “mas”. Não há dúvida.

Já falamos da Transfobia e começamos a discutir o chamado, e inexistente, exagero. Hoje o foco é grande preconceito existente dentro da chamada “comunidade LGBTT”. Comunidade que é completamente dividida e segregada, cheia de gritos individualistas. Não adianta querer esconder os preconceitos que temos uns com os outros na tentativa de mostrar que respeitamos a diversidade, a única forma de fazer isso é respeitando. A não ser que alguém queira que o mundo esconda seus preconceitos e faça de conta que está tudo bem.

Muitos LGB tem preconceito com os TT, justo as pessoas que deveriam entender o que é sofrer preconceito, as pessoas que deveriam aceitar a diversidade, as pessoas que deveriam respeitar as diferenças, as pessoas que deveriam querer união e não segregação. É como já disse no texto Exagero(?), “Aceitamos as diferenças, desde que sejam iguais às nossas”. O preconceito existe entre gays, lésbicas e bissexuais, porque não existiria com travestis e transexuais? E dá pra perceber o quão triste e errado é isso? O quão contraditório? Queremos nossos direitos, mas discriminamos outras pessoas.

Uma das coisas que mais repeti, e mais repetirei, nessa coluna, é o quão natural, normal e digno é ser um transexual ou travesti. Por natureza é. Nós é que tentamos tirar isso deles. Travestilidade e transexualidade são identidades de gênero tão respeitáveis quanto homem, mulher, andróginos.

A transfobia por parte dos LGB não é um empecilhos apenas para os transexuais e travestis, mas para todos os LGBTT. O preconceito entre pessoas que buscam seus direitos só dificulta a conquista. Nos fazem acreditar que somos uma minoria e por isso nossa voz é fraca. Mas só somos minorias quando estamos separados, segregados. O único grupo que não é considerado minoria em nossa sociedade é o de homens brancos e heterossexuais, todas as outras pessoas são minorias.

Se você usa a frase “Não tenho preconceito, mas”, talvez seja hora de repensar. De nada adianta cobrar que respeitem a “sua minoria” e as outras que se explodam. É hora de perceber que você está apenas repassando o preconceito, jogando no colo da próxima vítima.

E pra finalizar vamos traduzir o “Não tenho preconceito, mas”?

Tradução: Não tenho preconceito, só que ao contrário.

Imagem do filme Tomboy, de Céline Sciamma

Dia das crianças chegando, então vamos falar de infância?

Na infância ainda estamos nos formando como seres humanos, não sabemos do que gostamos, estamos aprendendo sobre o que é o mundo. É nessa fase que muitos aprendem o preconceito, outros aprendem que ser eles mesmos é errado, e um número crescente de pessoas aprende a respeitar.

E então me vem a pergunta, como é a infância de uma criança trans? Não tenho muitos relatos de infância, mas os que conheço são, de certa forma, parecidos. O exemplo mais constante é vontade de brincar e vestir roupas do, dito, “sexo oposto”. Um exemplo também comum entre lésbicas e gays. Alguns dizem que já se sentiam diferentes, outros queriam fazer xixi de pé e outros queriam fazer xixi sentados. As coisas que desde pequenos somos ensinados a encarar como de homem e de mulher.

Essas ações das crianças são naturais, mas muitas delas são reprimidas. É o binarismo de gênero tentando forçar cada um a “ficar no seu lugar”. Mas então vem a pergunta: “Não é o binarismo de gênero que força a escolha trans?” Primeiro de tudo, Transexualidade não é escolha, assim como homossexualidade. E agora vai a minha opinião, meu ponto de vista, vamos deixar isso bem claro. Ok? Eu acredito que a expressão da sexualidade, da identidade de gênero e de suas inúmeras combinações, pode acontecer em qualquer etapa da vida. Isso vai depender da repressão, do preconceito, das referências e da abertura que se tem. Diferentes pessoas assumem em épocas diferentes.

A nossa performance de gênero depende das referências que temos, do modelo que a sociedade usa. Nós vivemos em um mundo majoritariamente binário com relação aos gêneros, logo as expressões tendem a seguir esse padrão. “Se nós tivéssemos maior diversidade de gêneros, os trans existiriam?” Tenho certeza que sim, mas as expressões seriam ‘de acordo’ com tal diversidade. A expressões das crianças só mostra o quão natural isso é. Nascemos sem saber o que é homem e mulher, mas somos ensinados desde o começo de nossas vidas. Nos dizem o que é coisa de mulher e o que é coisa de homem.  Nos dizem se somos homens ou se somos mulheres. Mas, apesar de ainda não sabermos ao certo, às vezes nos sentimos diferentes daquele padrão e agimos, naturalmente, de forma diferente. A naturalidade com que fazemos isso na infância é uma grande prova da naturalidade dessa diversidade. Pois se fosse algo aprendido, milhares de gay, lésbicas, transexuais, travestis, seriam heterossexuais que se encaixam perfeitamente no binarismo de gênero, pois é isso que somos ensinados. E vale lembrar que muitos heterossexuais também fogem ao padrão binário de gênero.

Só passamos a ter senso crítico quando crescemos, amadurecemos. Mas com o tempo também somos contaminados por pré-conceitos, sem nem saber o motivo de sua existência.

Deixar que as crianças de hoje cresçam sem as distorções com as quais crescemos, deixando que elas se expressem livremente, sem separar o que é de menino do que é de menina, é chave para uma sociedade com mais liberdade, mais respeito, e talvez a única maneira de conhecer a real diversidade humana.

Não sei quanto a vocês, mas sinto que mesmo com toda a diversidade que já temos, ainda nos limitamos demais.

 

“I have too much imagination to just be one gender.” – Erika Linder

Apesar de toda maldade em meu coração, escrevo com muito amor. E como hoje é aniversário da Tia, vou escrever sobre um dos meu temas favoritos, androginia. Presentinho pra mim.

Mas qual a relação entre androginia e os transexuais? Assim como a transexualidade, e a travestilidade, a androginia também é considerada uma transtorno de identidade de gênero. Sim, são consideradas doenças.

Muitas pessoas chamam a bissexualidade de “fica em cima do muro”, “indecisão”, pois a pessoa não “escolhe” entre homens e mulheres, como se fosse escolha. A androginia seria, de certa forma, o “ficar em cima do muro” com relação as identidades de gênero. Só que esse “ficar em cima do muro” é a nossa maneira de forçar uma escolha que não existe, de querer puxar para um lado ou para o outro. Vontade de forçar algum tipo de binarismo. A androginia, assim como a bissexualidade, é uma mistura e não indecisão.

Pessoas andróginas são as que possuem um identificação mista entre masculino, feminino e etc. A androginia em si é bem simples, é apenas uma mistura entre os gêneros com os quais nos acostumamos, é a não definição ente um ou outro. A pessoa não se identifica como homem e nem mulher, se identifica como a mistura. Também pode ser feitas adaptações ao corpo, assim como transexuais e travestis, apesar disso ser incomum. A sexualidade também não é definida pela androginia, nós já aprendemos a separar identidade de gênero de sexualidade.

Existem transexuais andróginos? Eu nunca vi, mas com certeza eles devem existir. E eu sou completamente a favor. É por essas e outras que acredito que nossa sigla, que sempre cresce, será sempre insuficiente. LGBTT, já existe LGBTTQIA. Já estão ficando letras demais para uma sigla e letras de menos para definir a nossa diversidade.

No fim das contas todas as identidades de gênero, sexualidades, são simples, nós é que complicamos as coisas.

Apesar de sabermos que os gêneros não são binários, a língua acaba nos forçando a escolher como chamar alguém. Se usaremos pronomes femininos ou masculinos. Mas aí que surge a dúvida, como  lidar com as diversas identidades de gênero?

Bom, por enquanto está relativamente “fácil”. Como o binarismo ainda é muito forte, a maioria das pessoas acaba se forçando a escolher uma identificação feminina ou masculina. E nesses o nome, social, costuma ser o suficiente para sabermos como nos referir. Mas já existem casos de pessoas que não se identificam com essa regra de masculino e feminino, um bom exemplo é Laerte. Mesmo lendo em vários lugares, até falando, “o Laerte”, “Ele”, “o cartunista”, Laerte não se identifica com estes padrões binários. E se for pra ser bem sincero, eu também não. Gosto de roupas, em sua maioria, ditas masculinas, mas adoro misturar os guarda roupas e amo um bom salto alto, assim como uma “bolsa feminina”, uso a “identidade masculina”, pois é com ela que mais me identifico nesse sistema binário. Mas com essa minha identidade dupla, “O Guilherme” e “A Becha Má”, acho que encontrei meu melhor “meio termo”.

Quando falo de Laerte, utilizo palavras sem gênero especifico ou não utilizo. Como neste texto, é sempre o nome sem “do”, “da”, “ele”, “ela”, é “de Laerte” ou “Laerte”. É uma saída falha, pois nos leva a repetir o nome diversas vezes, mas, ao meu ver, é o que a língua nos permite.

Outra grande questão nesse “Ele ou Ela” são as travestis. Transexuais nós chamamos pelo nome social, o nome da identidade de gênero. Já no caso das travestis, costumamos desafia-las. É muito comum no depararmos com um “O”, um “DO” ou “DELE” escritos de todo tamanho para se referir às travestis. Travestis usam nomes sociais femininos, logo devem ser tratadas de forma feminina. A travesti, DA travesti, DELA.

As únicas pessoas que realmente se encaixam no binarismo de gênero são aquelas que se encaixam no padrão de homem e de mulher. E cada vez mais pessoas não sentem identificação com esse padrão limitado. Acredito que jamais conseguiremos categorizar todas as identidades, pois as possibilidades são infinitas. Devemos buscar uma forma de ser livres, sem precisarmos de nos definir como masculino ou feminino. A língua, assim como as normas sociais, foi inventada por nós, e sempre formos capazes de muda-las. Não podemos ignorar essa capacidade, pois ambas precisam de reformas.

Perdi a conta de quantas vezes ouvi “Mas precisa vestir de mulher? Aí já é demais!”. Você provavelmente já ouviu inúmeras vezes. Seja dirigida a travestis, transexuais, essa é uma das maiores demonstrações da falta de conhecimento. Tanto do universo LGBTT(adicione aqui sua letrinha), quanto do universo dos trans.

A ideia básica é que ser Travesti, ou Transexual, é o próximo passo para quem é homossexual, como se fosse uma evolução. Isso parte do princípio que homossexualidade é alguma coisa que muda, que cresce e que pode ser revertida. Essa evolução parece óbvia e natural para muitas pessoas, inclusive as representadas pela sigla. Mas por qual motivo?

A homossexualidade já é encarada como a mudança da heterossexualidade de alguém. Vivemos em um sociedade heteronormativa, onde todos nascemos heterossexuais e temos nossa sexualidade “desviada”. Graças a falta de aceitação, se assume por partes e em fases os “desvios da norma”. De hetero se passa para gay, depois para travesti e então transexual. Mas essa passagem é distorção completa da realidade. E mesmo quando essa “transição” acontece, é por pura imposição social. O preconceito inibe até que a pessoa se canse de viver como quem não é. Não criamos apenas a falsa ilusão de que esse é o processo padrão, criamos o processo.

Homossexualidade diz respeito a sexualidade da pessoa, enquanto travestilidade e transexualidade dizem respeito a identidade de gênero. São coisa diferentes e independentes.

Muitos gays e lésbicas também veem a transexualidade e travestilidade como um exagero, algo desnecessário. Justamente aqueles que deveriam respeitar a diversidade. Esta é a parte mais triste do preconceito. Mas é bom lembrar que para o homofóbico(zinho de merda), gays e lésbicas também são “um exagero”. Aceitamos as diferenças, desde que sejam iguais às nossas. Perceber, assumir e mudar isso é fundamental para acabar com a transfobia, assim como a homofobia.

O exagero de verdade é acreditar que podemos julgar alguém por simplesmente existir. Pois é isso que transexuais e travestis fazem, existem. É o que querem ter o direito de fazer, o direito de viver. O resto são apenas questões sociais, valores, crenças… A partir do momento que deixamos as condições de nascimento, como sexualidade, identidade de gênero, genitais, todo o resto é aprendido. Nós criamos os conceitos do que é o que, o que pode e o que não pode. Todos esses conceitos, categorizados por nós, não são automáticos. Automático, o que não se aprende, são os desejos, a atração, as crenças e normas foram inventadas por nós. Nós criamos a heteronormatividade, nós criamos a escravidão, nós criamos o preconceito, nós limitamos a escolha profissional de travestis e transexuais, nós limitamos a convivência pública. Limitamos inclusive nossa sexualidade, você é isso, ou isso ou aquilo. Limitamos o gênero para o binarismo, homem ou mulher, “Quer ser mulher? Então ‘corta o pinto fora’!”. Batam o pé e protestem o quanto quiserem, mas nós inventamos o homem e a mulher.

Deixe de exageros e viva a diversidade de verdade. Muito mais ampla do que a sigla jamais conseguirá representar, muito maior do que conseguiremos categorizar. Falamos do exagero, mas ele tem uma irmã esquecida. Em breve vamos discutir a invisibilidade.

Imagem original – Lea T para Vogue França

Não, isso não é um culto ao pinto! Já discutimos isso antes. Hoje vamos é falar da cirurgia de transgenitalização de masculino para feminino, a transformação do pênis em uma neovagina.

Ainda nos referimos a cirurgia como “cortar o pinto”, mas não é que acontece na realidade. Apenas os testículos são “cortados”. Existem diferentes métodos de cirurgia, e ela sofre alterações com o passar tempo, ela evolui. Já é um procedimento seguro e deixou seu caráter experimental.

Não existe um procedimento padrão, então vou falar de forma simplificada o que é feito. Detalhes de verdade, só com um cirurgião ou um médico com conhecimento a respeito.

 Basicamente é feita a inversão do pênis. São retiradas a partes consideradas desnecessárias para a construção da vagina e usadas as necessárias. A uretra, assim como os nervos, a pele do pênis, são mantidos para a criação de uma vagina funcional. Os  nervos e vasos de irrigação também são mantidos, para que haja a nutrição da pele e a transmulher possua sensibilidade. Também é construído o clitóris. A glande, “cabecinha do pau”, é usada em alguns métodos para criar o clitóris, mas outros métodos utilizam partes do canal urinário e utilizam a glande para simular a presença do útero.

O medo de muitas transmulheres é ausência de prazer após a cirurgia. Apesar da falta de estatísticas para mostrar as chances de se manter a sensibilidade, cirurgiões garantem que a sensibilidade, bem como a capacidade de se ter um orgasmo, é cada vez maior. A transgenitalização, hoje, não se preocupa apenas com o aspecto estético, mas também com o funcional.

O pós operatório pode incluir exercícios para a neovagina e a utilização de uma sonda vaginal. Isso é feito para garantir uma recuperação adequada, fazendo com que a neovagina mantenha tamanho e funções adequadas. Devido a retirada dos testículos, indica-se tomar hormônios para evitar problemas como osteoporose, perda muscular, insônia.

Hoje a cirurgia é um procedimento seguro, legalizado e é direito das transmulheres. Deve ser feito apenas com especialistas e em locais apropriados, só assim a neovagina terá grandes chances de sucesso. Se informe, procure um bom médico, procure apoio e informações em ongs e núcleos LGBTT.

E deixo com vocês o relato de Maitê Schneider, uma das pessoas mais incríveis que tive o prazer de conhecer.


Hoje a Tia vai começar a falar dos procedimentos médicos, e da situação. Apenas uma introdução com pontos chave a respeito de tais procedimentos e da situação no SUS, com o tempo nós nos aprofundamos. A questão é complicada e não cabe em apenas um post. Teremos vários textos a respeito de cada parte do processo, dos direitos e procedimentos. E pode perguntar, que a Tia dá um jeito de responder.

O SUS oferece o processo transexualizador, ainda existem muitos obstáculos. Mas o primeiro passo para superá-los é saber o que estamos enfrentando.

O, e a, transexual tem direito aos tratamentos médicos, uma vez que estes são benéficos para a pessoa. Também é direito o uso do nome social, sendo possível indicar o nome a ser usando.

O acompanhamento terapêutico pode ser encontrado de forma gratuita, ou a preços populares, em faculdades que oferecem ambulatórios escola. O intuito do acompanhamento é propiciar bem-estar ao paciente, assim como o diagnóstico (falaremos mais sobre isso) e a avaliação da pertinência das cirurgias e da hormonoterapia. Lembrando que esta avaliação é feita por diversos profissionais, pois existem riscos, assim como outras cirurgias e tratamentos hormonais. A função da equipe de médicos é avaliar e decidir o melhor tipo de tratamento para cada pessoa, fazendo que o resultado seja mais satisfatórios e riscos sejam menores.

O acompanhamento pós-cirúrgico  deve se estender, por no mínimo, dois anos após a cirurgia. Em casos de hormonoterapia, o acompanhamento endocrinológico deve se estender por quanto tempo for necessário. Mesmo após a desvinculação do sistema de atenção, o paciente possui o direito de buscar acompanhamento psicológico e social pelo SUS.

Sabemos que direitos e realidade são coisas bem diferentes, assim como sabemos que o atendimento do SUS não é dos mais eficiente. Citei acima um resumo dos direitos aos tratamentos. Mas a demora no SUS pode ser grande. O atendimento digno é direito seu, mas sabemos que existem pessoas preconceituosas em diversos lugares. Elas são pequenos obstáculos. Procure indicações, e apoio, de centros de referência e ong’s LGBTT. Também é possível procurar a Secretária Municipal, ou Estadual, de Saúde. O atendimento à saúde da pessoa transexual é uma política pública, o que é responsabilidade da secretaria.

Entenda e cobre seus direitos. Só assim conseguiremos um maior avanço no tratamento para transexuais.

               Veja foto sem censura | +18

Uma pessoa transexual precisa fazer cirurgias para ser considerado transexual? A pessoa só é transexual depois dos processos de hormonização e cirúrgicos? Essas perguntas remetem ao que é ser transexual, que na verdade é uma pergunta tão sem resposta quanto “porque somos gays”. Mas de qualquer forma, para estas perguntas em específico, acredito que a resposta seja não.

Já escrevi aqui sobre a questão da identidade, a transexualidade é uma identidade e não o resultado de tratamentos médicos, e muito menos “curável” via tratamentos médicos. As cirurgias e os tratamentos hormonais são ferramentas para adequação do corpo a identidade. O transexual possui uma identidade oposta ao seu corpo, logo o mais natural é buscar uma forma de adequar o corpo a essa identidade. Mas não são necessárias todas as mudanças. Necessárias são apenas aquelas que o transexual julgar necessárias.

Existem hoje, graças às falhas das cirurgias, muitos transhomens que não possuem pênis. Alguns nem retiraram o seios ainda. Isso faz deles apenas projetos de transexuais? De forma alguma! Existem transmulheres, que por opção, mantem o pênis e não constroem uma neovagina. Isso as torna apenas meio transexuais? De forma alguma!

Já falamos da separação entre genitais e identidade aqui. É bom lembrar que não é o pênis que faz o homem, assim como não é a vagina que faz a mulher.

Existem diversas ferramentas para os transexuais, elas estão ali para que eles possam utilizadas da forma que o transexual achar melhor. Lembrando que são tratamento médicos. Hormônios e cirurgias não vem cara, cor, sexualidade e nem identidade, apresentam riscos para todos os seres humanos. Todos os tratamentos devem ser feitos com acompanhamento médico para evitar complicações. Achar o médico certo pode não ser fácil, mas é melhor do que sofrer efeitos inesperados.

Um gay não se torna gay apenas depois de sair do armário. Da mesma forma, um transexual não se torna transexual depois de processos médicos.

Semana que vem a Tia volta para falar das cirurgias, da hormonoterapia e do SUS.

Imagem original por Jonathan Ducruix, série Metamorphosis

Muitas pessoas não gostam do nome que tem, e isso já é um incomodo sem tamanho. Mas e quando seu nome não corresponde a sua identidade? E quando você é uma mulher, mas seu nome de registro é Fernando?

O nome social é o nome escolhido por travestis e transexuais, o nome a ser usado, o nome com o qual se apresentam e se identificam. Assim como muitas pessoas usam apelidos para se apresentar, usa-se o nome social. Para quem usa apelido, mostrar a identidade, ou responder a chamada, não é um grande problema. Mas a coisa muda de figura para transexuais e travestis, uma vez que o RG não corresponde a identidade da pessoa, o RG é avesso a identidade.

O problema vai além do RG, que é tido como documento de identidade, uma vez que adota-se o nome social em diferentes fases da vida. Uma chamada na escola, na faculdade, pode ser uma tortura para muitas pessoas. Existem instituições que aceitam o nome social e os colocam na chamada, mas existem instituições que insistem no uso do nome de registro. Causando conflitos e desconforto.

A questão pode parecer mais simples, e banal, para quem observa de fora. Mas simples de verdade é respeitar a identidade. A situação atual é complexa e triste. O desrespeito ao nome social é uma forte demonstração de transfobia. É negar a estas pessoas um de seus direitos mais básicos, serem quem são.

Existe a possibilidade alterar o nome civil. Não existe legislação específica para que tal mudança seja feita, mas a lei permite. É necessário entrar com uma ação judicial onde o resultado dependerá do Juiz ou da Juíza.

O Rio Grande do Sul aprovou, recentemente, o uso da carteira com nome social. A carteira terá a mesma função que o RG, mas respeitará a identidade. É um grande passo para o reconhecimento e respeito de cidadãos como quaisquer outros. Falta agora a implantação em todo o território nacional, e quem sabe, em um futuro mais digo, no mundo todo.

O nome social não é uma apelido, mas sim a representação da identidade.

     Veja foto sem censura | +18

De todas as coisas envolvendo os trans, provavelmente a menos falada é a sexualidade. Não, transexualidade não diz respeito às mesmas coisas que homossexualidade, heterossexualidade, bissexualidade e etc. A transexualidade está ligada a identidade de gênero. Uma pessoa trans pode ser homo, hetero, bi, pan, assim como quem não é trans.

Calma, vem devagar. A Tia ajuda. Identidade de gênero diz a respeito à sua identificação, seu corpo, se você se identifica, feminino, masculino, andrógino, e mais infinitos nomes. Entre essas identificações de gênero estão os transexuais, pessoas que se identificam com o sexo oposto e adequam o corpo através de tratamentos hormonais e cirúrgicos. A sexualidade diz respeito a sua atração por outras pessoas, e a identidade de gêneros dessas pessoas.

Vale lembrar que não existem apenas homens e mulheres, um ou outro. Não só os transexuais, mas também travestis, andróginos, fogem à regra binária de identificação de gênero. Mas essa é uma discussão que teremos mais para frente, por enquanto vamos usar alguns dos nomes com os quais estamos acostumados.

Uma transmulher pode ser lésbica, da mesma forma que pode ser hetero, da mesma forma que pode ser bi, da mesma forma que pode ser pan, e por aí vai. O mesmo se aplica ao transhomem. Como já disse, a transexualidade diz respeito ao próprio corpo e identidade, e não está diretamente ligada a sexualidade.

A separação da sexualidade e da identidade de gênero é importantíssima. Essa separação que é responsável pela grande diversidade da comunidade LGBTT (LGBTTQIA, se vocês preferirem).

Tendemos a pensar que transexuais terão relações heterossexuais. “Se quer virar homem, é pra pegar mulher”. Dou um centavo pra quem achar os erros da frase, porque está muito fácil.

No fim das contas é tudo bem simples. Os trans são livres pra sentirem atração por qualquer pessoa, assim como quem não é trans. Identidade de gênero é uma coisa, sexualidade é outra. Não tem muita complicação. Nós é quem inventamos os obstáculos.

Agora você já sabe que identidade de gênero é diferente de sexualidade. Depois a Tia conversa sobre a identidade de gênero com vocês.

     [+18] Imagens completas: 1 Sword Series 1997 Mister 2005autorretratos por Loren Cameron.

Estamos mais acostumados com a “transição” do masculino para o feminino. Pouco se fala, publicamente, sobre homens transexuais. Se pouco se fala sobre os transhomens, menos ainda sobre as cirurgias e como ficam seus genitais. Uma transmulher pode fazer cirurgia para a “construção” de uma vagina. Mas como é o processo inverso? É possível? Eficiente? Um homem precisa de pinto?

Existem diferentes tipos de cirurgias e procedimentos, desde a remoção das mamas, retirada dos ovários e do útero, construção do pênis, alargamento do clitóris…

Como toda cirurgia, elas também apresentam riscos. Todas as focadas no pênis possuem suas desvantagens quanto ao resultado final, seja um pênis pequeno e de uso sexual limitado, um pênis aparentemente realista e com função sexual nula. Ainda vamos falar das cirurgias com mais detalhes, mas como sei vocês são curiosos fica o link do FTM Brasil.

Repetindo a pergunta, um homem precisa de um pau pra ser homem? E o que é ser homem?  No fim do dia tudo é mais uma questão de identidade do que de definições alheias. Algumas pessoas nascem com pintos enormes e se sentem mulheres, transmulheres. Algumas pessoas nascem com clitóris e se sentem incrivelmente homens.

Certo que a maioria dos transhomens não faz as cirurgias por elas não estarem desenvolvidas o suficiente, mas a ausência do pinto não os torna “menos homens”. Se é que existe alguém mais ou menos homem. Talvez apenas mais ou menos humano, mas isso é questão de respeito, preconceito e etc…

Como bem disse João Nery em entrevista ao Jô Soares, “Sou um homem sem pau”. Talvez esse seja um momento oportuno para questionar nossos conceitos de masculinidade. O tal homem sem pau é a prova de que o binarismo de gênero é uma ilusão. Uma ilusão criada, cultiva e reforçada por nós. A tal hombridade, palavra feminina, destaca as boas qualidade do homem e não o tamanho da mala. Segundo o dicionário a expressão diz respeito à dignidade, nobreza de caráter, entre outras qualidades atribuídas ao homem.

Esse culto sem fim a masculinidade, reflexo de uma sociedade machista, que coloca o pau como centro de tudo que faz um homem, é um erro. Um erro não só pela existência de transexuais, mas sim por subestimar a capacidade humana, por atribuir certos valores a coisa errada. O pinto tem seu lugar na vida de muitos de nós, não me entendam errado. Mas ele não define a existência de ninguém.

Acho necessária a evolução das cirurgias, da mesma forma que acho importante fortalecer o movimento “homens sem pau”. Assim, quando for possível ter um neopênis completamente funcional, a cirurgia passará a ser uma opção e não uma pressão social. O ideal é poder escolher entre ser um transhomem com ou sem pau.

E se existir alguém mais homem que alguém, digo que os transhomens são alguns dos homens mais homens que tive o prazer de conhecer. Deixo aqui as palavras de um deles.

Semana passada comecei a coluna TRANSformando. Tivemos uma breve introdução do conteúdo que será discutido aqui. A minha intenção é aproximar, ao máximo, “nosso mundo” do “mundo trans”. Afinal, o mundo é um só, nós que é que nos separamos.

A segregação e o preconceito não são uniformes para e com a comunidade LGBTT, mas diferentes para cada letrinha. Sem contar o preconceito entre os LGBTT. Dentro desses “preconceitos específicos” existe a Transfobia, que segundo a Wikipédia “refere-se à discriminação contra as pessoas transexuais, travestis e transgêneros”.

Acredito que a transfobia seja o “novo grande preconceito”. Apesar do grande problema que ainda é a homofobia, a situação é menos pior. Da mesma forma que racismo ainda existe, mas a homofobia ainda é mais problemática, a transfobia é um problema maior que a homofobia.

Como divulgado pelo DQOGG, saiu o primeiro estudo a respeito do perfil das vítimas de homofobia no Brasil. Não há menção a transfobia, transexuais, travestis. São todos encaixados no binarismo de gênero, Homem e Mulher. O binarismo, que é problema para homens e mulheres gays, é um dos, senão O, grande obstáculo para os trans. São pessoas, que por natureza, desafiam as concepções criadas de masculino e feminino. Seus corpos são os dois ao mesmo tempo, eles transitam na multiplicidade e na diversidade que é o ser humano.

É a necessidade de “um ou outro”, e não a transexualidade, que gera a confusão. E a identidade de gênero não está, necessariamente, atrelada a sexualidade dessas pessoas. Uma mulher trans, assim como um homem trans e uma travesti, podem gostar de homens, mulheres, trans, de qualquer uma das letras da sigla ou de todas as letras da sigla. Mas a sexualidade fica pra uma discussão mais a frente, com um texto só pra ela.

A transfobia chega ao absurdo de deixar várias pessoas sem opção de emprego, em situações de constrangimento por apenas mostrar a identidade, serem chamados pelo nome de registro e não o nome social e a lista continua. Mas, na minha opinião, o pior de tudo é a transfobia por parte dos LGB’s. Pessoas que lutam por seus direitos, são agredidas pelo mesmo motivo, não respeitam a própria diversidade. Se queremos igualdade, que ela comece entre nós.

Todo e qualquer assunto dessa coluna pode, e será, tratado em vários textos. Essa é apenas a ponta do iceberg, um pedacinho do que é a transfobia. Talvez o suficiente pra te fazer pensar mais a respeito antes de entrarmos em maiores detalhes.

Cinemão: Transamérica Filme Gay

Felicity Huffman é uma ótima atriz e não estou falando isso só por seu papel em Desperate Housewives, em que da vida a uma das donas de casas desesperadas, mas também por seu brilhante papel em Transamérica, filme de Duncan Tucker, estrelado por ela ao lado de Kevin Zegers, que interpreta o filho de sua personagem.

Transamerica conta a história de Bree Osbourne, uma orgulhosa transexual de Los Angeles, que economiza o quanto pode para fazer a última operação que a transformará definitivamente numa mulher. A história nos apresenta a personagem quando ela recebe um telefonema de Toby (Kevin Zegers), um jovem preso em Nova York que está à procura do pai. Neste momento Bree se dá conta que tem um filho e que este deve ter sido fruto de um relacionamento seu, quando ainda era homem. Ela, então, vai até Nova York e o tira da prisão.

O rapaz começa a imaginar que a senhora que o ajudou seja uma missionária cristã tentando convertê-lo e Bree entra nessa brincadeira, até que a verdade começa a surgir. A parte tensa da trama é agravada quando Toby descobre que sua “protetora” tem um pênis.

Cinemão: Transamérica Filme Gay

O ator Kevin Zegers em cena

Não só a atuação de Felicity Huffman (indicada ao Oscar como Melhor Atriz e ganhadora do Globo de Ouro na mesma categoria), como o roteiro e a direção (o roteiro também é de Duncan Tucker) são ótimos, fora que o filme pega dois temas completamente delicados e joga numa trama simples, onde um pai (ou uma mãe) e seu filho passam mais tempo juntos em uma semana, do que passaram em toda sua vida, onde um aprende com o outro e ambos entendem que não são perfeitos. A mãe (ou pai) pelo troca de sexo, e o filho por suas atitudes adolescentes.

Um detalhe que poucos sabem é que o filme foi baseado na vida da atriz Katherine Connella, que é transexual. Um dia, enquanto conversava com Duncan Tucker, ela o surpreendeu ao dizer que havia nascido homem. Duncan ficou muito surpreso, pois eles haviam morado juntos por 4 meses.

Cinemão: Transamérica Filme Gay

A atriz Felicity Huffman que interpreta uma transex

Um dos pontos interessantes da história, pelo menos para nós, é o personagem de Kevin Zegers. O filho de Bree, além de ser muito bonito, também gosta de meninos e no final da trama decide ganhar dinheiro com seus “dotes”.

Assista ao trailer do filme:

Acesse o blog do Jader clicando AQUI!

Reprodução: YouTube

A ABGLT [Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais] denunciou a propadanda da cerveja Nova Schin, onde uma transsexual é ‘objeto de escárnio, piada e deboche, ‘de noite era Maria e de dia era João’, palavras da própria associação.

Segue nota enviada:

Nossa consternação se dá pelo fato de que a população de travestis é entre as mais discriminadas no Brasil e que o comercial contribui para referendar e banalizar essa discriminação, ridicularizando a personagem travestida. Para ilustrar, em pesquisa feita na Parada LGBT de São Paulo em 2005, 77,% das pessoas travestis e transexuais afirmaram já ter sofrido agressão verbal/ameaça de agressão em virtude de sua sexualidade (www.clam.org.br).

Para entender nosso posicionamento, bastaria ridicularizar a personagem do comercial por causa da cor de sua pele ou por causa de sua raça, para perceber que o conteúdo é discriminatório.

Ao mesmo tempo em que entendemos que é preciso ter bom humor, não se deve utilizar-se da fragilidade de uma população para vender um produto. Isto não é condizente com o preceito constitucional da dignidade humana.

Reprodução: Youtube

Tem havido muito debate no Congresso Nacional e na sociedade brasileira sobre a discriminação por homofobia. Neste sentido, a fim de elucidar porque o comercial nos ofende, oferecemos uma definição bastante abrangente do conceito de homofobia que também demonstra a forma como o comercial está contribuindo para reforçar preconceitos baseados em estereótipos negativos:

[A homofobia é] um conjunto de emoções negativas (tais como aversão, desprezo, ódio, desconfiança, desconforto ou medo), que costumam produzir ou vincular-se a preconceitos e mecanismos de discriminação e violência contra pessoas homossexuais, bissexuais e transgêneros (em especial, travestis e transexuais) e, mais genericamente, contra pessoas cuja expressão de gênero não se enquadra nos modelos hegemônicos de masculinidade e feminilidade. A homofobia, portanto, transcende a hostilidade e a violência contra LGBT e associa-se a pensamentos e estruturas hierarquizantes relativas a padrões relacionais e identitários de gênero, a um só tempo sexistas e heteronormativos (JUNQUEIRA, 2007).

Assim sendo, vimos por meio deste solicitar a imediata retirada do ar do comercial “Festa de São João”, da empresa Nova Schin.

Na expectativa de sermos atendidos, estamos à disposição.

Sinceramente não curti muito essa brincadeira, achei de humor precário, ~levemente ofensivo~ e de uma falta de criatividade  imensa por parte da agência. Acho que pode-se abordar a homossexualidade e transsexualidade em um comercial, inclusive usar humor para falar sobre isso, mas de uma forma que ninguém se sinta ofendido com ‘brincadeira’. Espero que tirem do ar esse comercial, não por mim, mas pelazamiga transex que se sentiram ofendidas.

))) Pois é, foi noticiado que a transexual, Paullete Furacão, foi empossada na manhã desta quinta-feira como coordenadora do núcleo LGBT da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJDH) da Bahia. Oficialmente ela é a primeira transexual a ocupar um cargo no serviço público do estado. 

(Foto: Reprodução/TV Bahia)

Consta que Paullete milita na causa LGBT desde 2006 e dirige a associação Laleska D´ Capri, que luta por direitos para lésbicas, gays, bissexuais e transexuais.

A Secretaria de Justiça afirmou que a nova funcionária irá atuar para inserir os homossexuais e transexuais no mercado de trabalho. Esperamos que pelo menos isso seja feito, porque no que diz respeito a lutar contra a homofobia, as coisas pela Bahia não andam bem. Nossa amiga, Ritinha, disse que semana passada mesmo, um casal de gays foi espancado por lá, somente por andarem com as mãos nos ombros um do outro.
#Revoltante